BaxEnergy

Espaço Associado

BaxEnergy

Blockchain para a energia: esperança ou propaganda exagerada?

 

No Verão de 1896, George Carmack encontrou provas da existência de uma grande quantidade de ouro ao longo das margens do rio Bonanza Creek no Noroeste selvagem do Canadá. No momento em que ele tentou registar os terrenos que pareciam mais promissores, as notícias sobre esta descoberta espalharam-se desde a esquadra de polícia local até grandes cidades como Seattle e San Francisco.   Num abrir e fechar de olhos uma enorme multidão de mais de 100 000  pessoas subiu o território montanhoso e bastante inóspito de Yukon conduzido pela força do burburinho e pelo receio de perder uma oportunidade única. Alguns anos mais tarde, a vasta maioria tinha perdido todo o dinheiro e apenas algumas centenas dos mais de 100 000 que se mudaram para o norte conseguiram, de facto, atingir alguma estabilidade financeira. Depois, rumores sobre ouro descoberto em outras paragens espalharam-se rapidamente e a multidão mudou-se seguindo novas sirenes.  

 

A fascinante, e até um pouco romântica, história da corrida ao ouro pode ressurgir quando se pensa no Bitcoin e na Blockchain. Alguém como George Carmack encontrou uma solução potencialmente disruptiva e valiosa que definitivamente funcionou com ele e seus propósitos/objetivos mas, quando as notícias se espalharam, uma multidão de pessoas quis retirar esta solução do seu contexto e faze-la funcionar em seu benefício.


O detonador da corrida ao ouro é o mesmo detonador da propaganda exagerada à volta da Blockchain atualmente. O interesse entusiasmado à volta da Blockchain alicerçou-se há uns anos e o seu uso hoje em dia é defendido em praticamente todos os domínios do negócio. A energia não é excepção... 


Mas há, de facto, alguma consistência real atrás da propaganda exagerada? Vamos tentar descobrir.


Uma reciclagem sobre a Blockchain

 
Em 2009, o projeto Bitcoin tinha um objetivo claramente definido: criar uma versão de dinheiro eletrónico entre pares por forma a permitir que os pagamentos online pudessem ser efetuados diretamente de um parceiro para outro sem passar por uma instituição financeira. Para implementar esta solução, os criadores da Bitcoin estabeleceram um mecanismo onde cada dono de uma moeda digital podia transferi-la para outro individuo combinando o valor de hash da última transação envolvendo a moeda com a chave pública do receptor numa nova transação. A nova transação poderia então ser acrescentada, como um novo bloco, à cadeia de transações da moeda. A moeda, por conseguinte, trata-se de uma cadeia de valores digitais reconhecidos e a cadeia total é chamada de Blockchain.


O que torna a Blockchain especial é como os criadores resolveram o problema – específico do contexto monetário digital - de assegurar que nenhuma moeda digital pudesse ser gasta duas vezes. No final do dia, cada moeda digital é um ficheiro de computador e pode ser copiado uma e outra vez e assim possivelmente multiplicar as vossas finanças. Para evitar isso, os criadores da Bitcoin acrescentaram um mecanismo de prova de trabalho (proof-of-work) que verifica a honestidade de todas as transações registadas na Blockchain. Esse mecanismo consiste em resolver um puzzle matemático - um problema que exige uma computação exponencial pesada. Uma vez verificada e escrita na Blockchain, a transação torna-se muito difícil de alterar, tornado assim quase impossível o gasto duplo das moedas envolvidas. De forma bastante disruptiva, a prova de trabalho (proof-of-work) não é fornecida por uma autoridade central mas sim pela maioria dos membros votantes na rede. Estes utilizadores são chamados de, imaginem só, mineiros!


No contexto da Blockchain, a palavra “imutável” é usada frequentemente, mas torna-se relevante notar que “imutável” aqui não significa o que os dicionários indicam: inalterável ao longo do tempo ou incapaz de ser alterado. Digamos que um utilizador malicioso/ mal intencionado quer acrescentar uma transação a um dado bloco para gastar dinheiro que já foi gasto. Primeiro, ele tem de completar uma prova de trabalho (proof-of-work) para a nova versão do bloco. De seguida, ele tem de substituir a referência ao bloco na Blockchain. Infelizmente, para ele isso significa recalcular a prova de trabalho (proof-of-work) para todos os  blocos subsequentes que na versão atual da Blockchain dependem do bloco alterado. Isto é teoricamente possível, mas economicamente insustentável, pelo menos para pessoas normais. Como já indicado, de facto, “um ataque de 51%“ no qual alguém reverte uma Blockchain para uma determinada data e rescreve a história é irrealista para pessoas normais mas pode ser executável por governos (desonestos) ou mesmo organizações muito ricas (mas desonestas). Teoricamente, na verdade, basta publicar um novo conjunto de transações usando depois força bruta (leia-se, poder  computacional) para aprová-las sobre o resto da rede de pares.


As promessas por trás do Blockchain


Em resumo, a Blockchain  é um tipo especial de base de dados onde todas as transações de todas as moedas existentes no sistema monetário do Bitcoin são registadas. A Blockchain funciona como um livro de contas digital - apenas uma versão moderna do ultrapassado livro de contas em papel onde os contabilistas relatavam em pormenor a informação financeira. A Blockchain do Bitcoin tem o seu conteúdo distribuído por todos os nós da rede e o seu novo conteúdo espalha-se pela rede de forma difundida. Não há nenhum servidor que possa ser comprometido e o conteúdo distribuído é difícil de adulterar e qualquer conteúdo adulterado será imediatamente detetado.

 
A falta de “concepção” por uma autoridade central fez com que muitos vissem na Blockchain o potencial de abalar os pilares de áreas de negócio consolidadas e, de forma mais acentuada, todas aquelas onde camadas de “certificação” são exigidas. 


A esperança (ou propaganda exagerada) é que ao colocar informação na Blockchain a indústria em geral possa atingir o mesmo tipo de segurança e fiabilidade nas transações que na Bitcoin. No que diz respeito à energia, a esperança (ou propaganda exagerada) é que ao colocar informação na Blockchain possa ser efetuado um comércio mais eficiente sem os custos dos intermediários que provam a identidade e certificam transações.   


O primeiro uso da Blockchain na indústria da energia data de 2016. Vamos brevemente rever a última geração de dados antes de examinar alguns cenários futuristas possíveis para a indústria energética. 


Blockchain e Energia: um cenário possível


Durante algum tempo em alguns países a instalação de centrais locais de energia renovável tem sido estimulada pela garantia de uma tarifa de aquisição fixa. Esta situação ocasionou a construção de mais centrais pequenas de energias renováveis, às vezes apenas painéis solares nos telhados das casas. O período das taxas fixas de aquisição está a terminar e as centrais de energia com uma capacidade superior a patamares nacionalmente definidos são frequentemente forçadas a vender a energia em excesso apenas por marketing direto. No entanto, aceder ao mercado energético é, às vezes, muito complicado  para pequenos produtores, quanto mais para consumidores-produtores. Isto cria a necessidade de um serviço de vendas que sirva de intermediário para lidar e garantir as transações entre as diferentes partes.

 
Parece ser uma boa situação para se usar o sistema baseado na Blockchain. 


A BaxEnergy, como outras empresas, está a experimentar soluções que facilitem o marketing direto de energia, com ou sem o paradigma da Blockchain.  Devemos considerar como elemento chave  o  problema real que desejamos resolver mais do que as tecnicalidades que podem ser usadas.
 
Um motor digital implementa a lógica do comércio estabelecendo as regras  de governação e interagindo com a rede elétrica para receber um aviso de pedido ou de excesso de energia. A aplicação informática é implantada num conjunto de nós que pode ser efetivamente ampliado ou reduzido. Alguns dos nós da rede podem desempenhar funções adicionais como monitorização do estado da rede energética e controlar fisicamente a entrega da electricidade. No seu conjunto, a rede de nós opera como uma Blockchain privada e consentida/autorizada. 


Blockchain privada consentida/autorizada

 

A Blockchain da Bitcoin é um tipo bastante aberto e ambicioso de Blockchain. De facto, qualquer pessoa pode aderir à rede e tornar-se um mineiro, desempenhar serviços de prova de trabalho (proof-of-work) na rede validando os blocos e conseguindo uma recompensa por esse serviço. Esta Blockchain é referida como pública e não autorizada/ consentida. Em alternativa quando nós saímos do domínio da Bitcoin também podemos ter implementações privadas e autorizadas. Numa Blockchain privada o número de nós é rigorosamente controlado e a prova de trabalho (proof-of-work) pode até não ser exigida. Tudo depende da lógica implementada e das tecnologias inerentes usadas. 

 

Numa Blockchain privada e autorizada a confiança não advém dos mineiros, mas do próprio dono! Esta situação mina por completo a ideia romântica da Blockchain ser uma plataforma aberta e democrática. 

 

Os utilizadores do sistema são consumidores finais à procura de energia aos preços mais baixos possíveis e produtores de energia que tanto podem ser pequenas empresas, grandes serviços ou produtores-consumidores finais. Todos os utilizadores do sistema precisam de ter uma conta por forma a ligar-se ao serviço de vendas e à aplicação de mercado. Quem quiser vender através do sistema instalará um aparelho loT para monitorizar o que é produzido e receber comandos de regulação energética da aplicação do mercado para iniciar/parar a produção de acordo com o que for mais conveniente atendendo aos preços atuais.


O aparelho loT do produtor-consumidor torna disponíveis para venda  tokens de energia a serem produzidos. Um token de energia é um valor imaterial que se refere a um valor abstrato. Como uma moeda digital, um token de energia é um ficheiro de computador que se transforma em valor a dada altura quando a energia é fisicamente gerada pela central elétrica e entregue na rede. Como uma moeda digital, um token de energia não pode ser usado duas vezes significando que não pode ser entregue, nem comprado, por múltiplos consumidores. Neste aspeto, a mecânica da Blockchain tal como sumariado anteriormente no artigo sobre a Bitcoin, faz todo o sentido. Ao mesmo tempo, os consumidores usam uma aplicação de telemóvel para colocar comandos para COMPRAR no mercado. A aplicação referente ao mercado faz a ligação entre todos os comandos de COMPRAR e de VENDER, organizando um contrato inteligente e armazena resultados permanentemente. Finalmente, a base de dados do mercado é partilhada por todos os nós da rede.

 

Contratos Inteligentes

 

Um contrato inteligente é um contrato regular estabelecido entre ambas as partes, escrito mais numa linguagem de programação do que em linguagem legalista e aplicado automaticamente pela plataforma de apoio ao Blockchain. Um contrato inteligente é uma coleção de métodos programáticos para aprovar e executar o contrato e difundir os seus resultados através da rede. Quando dois utilizadores concordam num negócio, um contrato inteligente é programaticamente instanciado e introduzido na plataforma para execução real. A execução do contrato significa que o sistema  desenvolve todas as operações envolvidas de forma minuciosa e atempada. Um bom exemplo de um contrato inteligente é uma máquina de venda automática: você coloca as moedas, seleciona o produto e se a quantia estiver correta você obtém o produto.  De outro modo, o dinheiro inserido é devolvido ou o troco é restituído. No contexto da energia, um contrato inteligente deve assegurar que o token de energia que é vendido seja de facto produzido, entregue ao comprador através da rede e finalmente pago.


Um olhar rápido sobre a tecnologia 


Embora o conceito de uma Blockchain tenha nascido com a criptomoeda Bitcoin - uma plataforma especificamente concebida para criar um sistema monetário eletrónico entre pares - ele foi mais tarde generalizado a uma rede pública capaz de gerir códigos programáticos e de armazenar resultados de forma descentralizada. O que é meramente um valor de dinheiro digital na Bitcoin torna-se um resultado dos contratos inteligentes no Ethereum. No estado atual do desenvolvimento tecnológico, Ethereum é a plataforma Blockchain  mais adequada para implementar transações de negócios de qualquer tipo que envolvam um acordo entre partes que tem de ser cumprido e considerado válido para sempre. A plataforma Ethereum está disponível como uma rede pública e não consentida/autorizada mas os seus clones estão também a ser oferecidos como um serviço (Blockchain-como-serviço) por algumas plataformas nuvem populares, tais como a Microsoft Azure, Baidu Trust e a plataforma IBM Blockchain. Como utilizador de qualquer uma destas plataformas nuvem, o utilizador tem o direito de criar a sua própria rede privada e consentida para gerir contratos de qualquer tipo dentro do grupo dos seus parceiros e utilizadores registados. Neste contexto, a grande diferença entre as plataformas Blockchain privada e públicas é como a confiança é adquirida. Na Bitcoin e Ethereum a confiança é conseguida através do trabalho de mineiros que trabalham para o dinheiro digital em criptomoedas - bitcoin ou outras. Numa rede privada, o software implantado – a aplicação Blockchain interna - determina se a confiança tem de ser votada e se é obtida por maioria simples ou requer unanimidade ou ainda se é automática no momento da execução do contrato.

 

A Blockchain é de facto um grande avanço na Energia?


A Blockchain não é nem um produto nem uma tecnologia. Quando muito, é um paradigma de armazenamento. A Blockchain não existe; não é um repositório onde alguém possa apenas armazenar informações, quer sejam contratos inteligentes ou ficheiros representando transações monetárias. Cada aplicação deve codificar a sua própria Blockchain de maneira a guardar a sua informação de uma forma expansível e de confiança.


Por conseguinte, em que confiamos? 


O conceito de Blockchain de uma rede pública seguramente trabalha bem para o cenário Bitcoin de dinheiro digital para o qual foi criado O objetivo específico da Bitcoin, de facto, foi criar um sistema digital monetário e contornar o papel das autoridades centrais como a SWIFT ou moedas. Além disso, Bitcoin é o primeiro protocolo capaz de resolver de certa forma o problema do gasto duplo e fá-lo através da Blockchain. Colocando isto por outras palavras, não seria possível um sistema digital monetário para conduzir transações anónimas sem a Blockchain. Ou pelo menos, neste cenário, a Blockchain é um avanço pois possibilita coisas que não eram possíveis antes.


Precisamos mesmo de Blockchain no comércio de energia?


No contexto energético, as regulações são impossíveis de evitar e provavelmente nenhum ator quer contornar os controlos. Esta restrição leva diretamente a que se considere apenas as Blockchains  privadas e autorizadas, organizadas por empresas privadas, ou, no mínimo,  grandes serviços. Do ponto de vista do utilizador, a confiança reside no que o dono da Blockchain diz ou faz e o utilizador não tem controlo sobre isso. O sistema é muito mais eficiente, uma vez que não necessita de mineiros caros para provar a validade, mas trata-se da mesma questão de confiança que nós deparamos atualmente quando, enquanto utilizadores, assinamos um contrato com um fornecedor de eletricidade ou com um intermediário bancário.
 
Sumário


Atualmente o mundo energético, e não apenas ele, está permeado pela febre da Blockchain. A grande maioria deve-se à diligência de equipas inovadoras à frente de novas tecnologias e ideias. Mas a parte que é mais notória é a do marketing e talvez do medo de perder uma oportunidade. A mistura do marketing e do medo cria um burburinho e o burburinho explode de forma viral neste mundo de propaganda exagerada.


Para implementar um sistema de comércio energético, a Blockchain pode ou não ser usada. As tecnologias canónicas de armazenamento de dados podem funcionar também e podem ser mais baratas na sua implementação e mais rápidas, uma vez que o desenvolvimento não tem de lidar com tecnologias novas e ultrapassadas. Por todos estes fatores, no espaço energético, a Blockchain e toda a propaganda exagerada que nós respiramos tem de ser um incentivo para que se repense alguns aspetos dos modelos de negócio e se abane a fundação de alguns problemas conhecidos para encontrar soluções melhores e mais plausíveis.


O marketing direto é uma realidade e qualquer software relacionado com a produção de energia - por exemplo, software de centros de comando - tem de ser integrado na lógica do comércio e com transações seguras e localizáveis. Mas este é um problema diferente de apenas encontrar uma maneira de usar as implementações da Blockchain. 

 

 

Sobre a BaxEnergy


A BaxEnergy é uma empresa dedicada ao desenvolvimento de soluções de monitorização inovadoras, chave-na-mão, para a completa visualização, análise de dados e otimização de centrais de produção de energia a partir de fontes renováveis.


Acreditamos que as energias renováveis são fundamentais para a humanidade com a inovação e a tecnologia como os fatores chave para promover o seu crescimento.
Sediada na Alemanha e com escritórios em Itália, Portugal e na África do Sul, a BaxEnergy  deseja contribuir para um uso melhor e mais eficaz das energias renováveis em todo o mundo sendo atualmente responsável, entre outros, pela monitorização de cerca de 65% da energia renovável em Itália, 81% em Marrocos, 55% na Áustria, 14% em Portugal, 10% no Brasil, 33% no Chile e 40% na África do Sul.


Para mais informações sobre a empresa e os nossos produtos, por favor visite o nosso site em: www.baxenergy.com.

 

Filial em Portugal:
BaxEnergy Itália SRL Suc. Portugal
Tâmega Park – Edificio Mercúrio Fracção AC – Telões
4600-758 Amarante
Contactos:
Rui Carneiro
(+351) 927 624 854
carneiro@baxenergy.com ou info@baxenergy.com

Anúncios