Mensagem do Presidente – Janeiro 2026

O ano de 2026 inaugura um período decisivo para o sector energético português e europeu. Depois de anos marcados por ambição legislativa, metas ambientais cada vez mais exigentes e sucessivos pacotes regulatórios europeus, entramos agora na fase da prova. A fase em que não basta anunciar: é preciso concretizar. A fase em que não bastam compromissos: são necessários resultados. A fase em que a eletricidade — limpa, firme, competitiva — deixa de ser apenas uma componente técnica da economia e passa a ser a condição estrutural da sua viabilidade. É este o ambiente em que Portugal, os nossos Associados e a APREN entrarão em 2026.

Ao longo da última década, a transição energética europeia evoluiu de projeto de política pública para projeto civilizacional. As crises acumuladas — pandemia covid 19, guerra na Ucrânia, inflação energética, turbulência nas cadeias de fornecimento, reindustrialização global, competição tecnológica, tensões comerciais entre grandes potências, mostraram de forma clara que o modelo energético das democracias europeias não era apenas insustentável do ponto de vista climático. Era também vulnerável do ponto de vista económico, inseguro do ponto de vista geopolítico e tecnologicamente limitado face à aceleração digital e industrial de outras regiões do mundo.

Hoje, a energia deixou de ser um sector. É o eixo das políticas industriais. É o motor da competitividade. É a infraestrutura de segurança económica. É a ferramenta para manter a soberania política europeia. E, cada vez mais, é a fronteira tecnológica onde se decide quem lidera e quem segue.

1. O enquadramento macroeconómico de 2026: estabilidade frágil, riscos persistentes e pressão estrutural sobre a competitividade

A Europa entra em 2026 com sinais contraditórios. Há indicadores que sugerem que, depois de anos de perturbação profunda, a economia europeia encontrou algum equilíbrio. A inflação recuou para valores próximos dos 2%, a pressão nos mercados energéticos diminuiu e o BCE iniciou, ainda que tardiamente, um ciclo de descida das taxas de juro. No entanto, a Europa continua a crescer parcamente, demasiado devagar para as exigências da sua competitividade global, com o FMI a projetar apenas 1,6% de crescimento para 2026.

O continente enfrenta três fragilidades estruturais:(i) energia estruturalmente mais cara do que nos EUA e na China; (ii) produtividade persistentemente baixa e divergente, (iii) demografia em declínio acentuado, que condiciona força de trabalho, inovação e capacidade fiscal.

O mercado de trabalho europeu permanece apertado, mas com crescimento limitado. O investimento empresarial continua retraído, sobretudo nos setores electrointensivos. O crédito mantém-se mais caro do que na década anterior, e a fragmentação das cadeias de valor globais, acentuada por tensões como os controlos de exportação chineses em minerais críticos e tecnologia eletrónica, pressionam a capacidade europeia de competir na transição industrial, digital e energética.

2. A dimensão geopolítica: o mundo energético mais instável das últimas quatro décadas

Este é talvez o factor mais determinante para o sector energético em 2026. O mundo entrou numa fase prolongada de volatilidade geopolítica, onde a energia voltou a ser instrumento de poder e de chantagem.

A guerra na Ucrânia mantém-se como a mais significativa perturbação estrutural da segurança energética europeia desde os anos 70. A instabilidade no Médio Oriente, com foco nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, cria riscos constantes sobre o transporte marítimo e os fluxos globais de petróleo e GNL. O Mar Vermelho enfrenta ataques regulares, perturbando cadeias de valor e elevando custos de transporte. A competição estratégica entre os Estados Unidos e a China escalou para uma disputa aberta por controlo de tecnologias críticas, semicondutores, terras raras, solar fotovoltaico e baterias.

A concentração do refino de minerais em poucos países agrava a incerteza: a Agência Internacional de Energia (AIE) alerta, em 2025, para o facto de que mais de 80% do refino mundial de minerais críticos é controlado por apenas três países, com a China a deter mais de 70% em várias categorias.

A estes riscos somam-se ameaças híbridas: ciberataques sofisticados a infraestruturas críticas, campanhas digitais de desinformação, operações de influência e manipulação emocional. A energia transformou-se, não apenas num activo económico, mas também em campo de batalha psicológico.

3. A revolução digital e a nova procura elétrica: data centers, IA e o choque energético silencioso

Enquanto a Europa procura estabilizar-se, a economia global passa por uma transformação que os reguladores e planificadores dificilmente acompanharam: a explosão da procura de energia eléctrica associada à inteligência artificial, à computação avançada e aos data centers.

A AIE prevê que o consumo eléctrico destes centros triplique até 2030. Nos EUA, poderão atingir 14% de toda a eletricidade nacional já dentro de quatro anos. O investimento global em infraestrutura digital, quase 600 mil milhões de dólares em 2025, já superou o investimento em upstream de combustíveis fósseis.

Na prática, o mundo está a assistir ao nascimento de uma economia eléctrica de grande escala. A inteligência artificial (IA) é hoje, simultaneamente, a maior aceleradora e o maior teste de stress aos sistemas eléctricos modernos. Países que conseguirem oferecer energia limpa, firme, competitiva e abundante serão polos de inovação digital. Os que não o fizerem tornar-se-ão mercados consumidores, dependentes e com menor autonomia económica e consequentemente política.

Portugal tem atributos naturais que o posicionam como destino atractivo para estes investimentos — mas falta-lhe capacidade de rede. E um data center desloca-se em meses, já uma linha eléctrica demora anos. Esta é uma das grandes urgências estratégicas para 2026.

4. Portugal em 2026: crescimento acima da média, mas vulnerável a atrasos estruturais

Portugal prevê para 2026 uma posição macroeconómica comparativamente mais favorável. O PIB crescerá 2,1%, segundo o Boletim Económico do Banco de Portugal, acima da média da zona euro. O mercado de trabalho mantém dinamismo, a inflação estabiliza, e a economia beneficia do impacto final do PRR e do PT2030.

Mas estas boas notícias escondem uma vulnerabilidade profunda: o país depende cada vez mais da capacidade de transformar as energias renováveis em competitividade real. Esta é a vantagem comparativa mais clara, mais estratégica e mais sustentável que Portugal possui na economia global. Paradoxalmente, é, também, a área onde o país mais arrisca atrasar-se.

Os constrangimentos persistem, sem solução governativa à vista: (i) licenciamento lento e desigual; (ii) redes eléctricas saturadas; (iii) escassez de mão-de-obra técnica qualificada; (iv) incerteza fiscal e regulatória a intensificar-se; (v) atraso na implementação e expansão do armazenamento de energia; (vi) ausência de instrumentos de mercado robustos para PPAs garantidos soberanamente e CfDs; (vii) ausência de mecanismos de capacidade; e (viii) fragilidades institucionais que condicionam previsibilidade.

Se Portugal quer consolidar-se como país líder em energia renovável, precisa de transformar esta vantagem natural em vantagem competitiva. E isso exige velocidade, clareza e consistência.

5. A verdade incómoda: Portugal está a perder terreno para Espanha — e não pode ignorá-lo

Este ponto é incontornável. Mesmo com uma vantagem nas condições naturais e geográficas equiparável ou superior, Portugal tem avançado muito mais devagar do que Espanha em quase todos os indicadores que contam para a competitividade energética, dos quais destaco: (i) está a expandir de forma agressiva a RESP; (ii) atrai múltiplas gigafábricas de baterias; (iii) estrutura cadeias de valor industriais; (iv) acelera projectos híbridos e armazenamento; (v) discute intensamente os mecanismos de capacidade em Bruxelas; (vi) reforçou interligações internas; (vii) simplificou licenciamento de forma mais eficaz; e (viii) tornou-se um destino prioritário para investimento em indústria verde e data centers solares-eólicos.

Portugal não tem menos sol, menos vento, menos estabilidade ou menos capacidade técnica. Mas tem, injustificadamente, menos velocidade e menor capacidade de execução.

A consequência é clara: se não inverter esta tendência, o país arrisca tornar-se beneficiário residual da capacidade industrial ibérica, perdendo projectos para o país vizinho, não por falta de mérito, mas por falta de resposta institucional adequada.

6. O legado do apagão ibérico de 2025: uma chamada de atenção que não pode ser ignorada

O apagão de abril de 2025, que deixou mais de 50 milhões de pessoas na península ibérica sem eletricidade, foi um lembrete dramático de que, para gerar benefícios aos consumidores de energia, os sistemas eléctricos com elevada incorporação de energia renovável carecem de redes eléctricas robustas, flexibilidade integrada, armazenamento e digitalização profunda.

As conclusões da ENTSO-E foram inequívocas: (i) a transição não é apenas instalar renováveis; (ii) é garantir que o sistema consegue mantê-las, integrá-las e geri-las em tempo real; (iii) é reforçar linhas, subestações e interligações eléctricas; (iv) é antecipar picos, congestionamentos e falhas sistémicas; (v) é garantir resiliência operacional num sistema cada vez mais exposto à volatilidade climática e digital.

Portugal e Espanha não podem continuar a reagir depois. Precisam de antecipar antes.

7. Os dez eixos estratégicos da APREN: o centro de gravidade da competitividade nacional

Neste contexto exigente, os dez eixos estratégicos da APREN assumem um papel ainda mais determinante. Não são apenas prioridades técnicas do sector; são, essencialmente, prioridades económicas do país.

  1. Eletrificação profunda dos consumos — transportes, indústria, edifícios e serviços;
  2. Simplificação e aceleração do licenciamento — verdadeira, vinculativa e digital;
  3. Reforço da aceitação social — transparência, participação e benefícios territoriais;
  4. Integração rápida na RESP e expansão estrutural da rede;
  5. Mercados eléctricos robustos — PPAs, CfDs, serviços de sistema e mecanismos de pagamento por capacidade;
  6. Mobilização do financiamento privado — com estabilidade fiscal e regulatória;
  7. Optimização do investimento em híbridos, armazenamento (baterias e bombagem), e combustíveis renováveis de origem não biológica;
  8. Cadeias de valor resilientes com logística, indústria e manutenção adequadas;
  9. Qualificação e retenção de talento técnico;
  10. Adaptação geopolítica e regulatória permanente. Antecipação em vez de reação.

Estes eixos são o alicerce da visão estratégica da APREN e são também o caminho para o crescimento económico sustentado que Portugal precisa de garantir nesta década.

8. O desafio invisível: comunicação pública num tempo de desinformação energética

Nenhuma estratégia energética será bem-sucedida se não for compreendida, aceite e apoiada pela sociedade. A transição não falhará por falta de tecnologia, mas sim por falta de confiança. O sector enfrenta hoje narrativas distorcidas, medos amplificados e percepções erradas, muitas vezes alimentadas por campanhas organizadas de desinformação, como descreve Giuliano da Empoli em Os Engenheiros do Caos.

Portugal tem sido, até agora, relativamente imune aos movimentos anti-renováveis que cresceram noutros países europeus. Mas os sinais de tensão estão a aumentar, e ignorá-los seria o maior erro que poderíamos cometer.

A comunicação clara, pedagógica, transparente, fundamentada e próxima das pessoas e das comunidades é agora uma componente central da segurança energética, não um acessório. A APREN reforçará esta dimensão como parte integrante da sua missão.

9. Os 6 pilares fundamentais nos quais a APREN organiza a sua atuação:

  1. Satisfação dos Associados, estando ao lado dos mesmos, com apoio técnico, diálogo e representação eficaz;
  2. Sustentabilidade Financeira, gerindo os recursos recorrentes e não recorrentes com responsabilidade, garantindo uma base financeira sólida e sustentável;
  3. Eficiência Organizacional, actuando com eficácia e eficiência, promovendo processos ágeis e ferramentas digitais com incorporação de ferramentas de inteligência artificial;
  4. Aprendizagem e Conhecimento, produzindo informação e partilhando conhecimento útil e estratégico para o sector;
  5. Amplificação da Comunicação, comunicando com assertividade, combatendo a desinformação, valorizando a causa renovável, procurando aumentar continuamente o apoio social e dos stakeholders;
  6. Alinhamento dos stakeholders, identificando e actualizando regularmente os principais actores públicos e privados com impacto ou interesse na transição energética, desenvolvendo relações de cooperação com entidades-chave, promovendo sinergias em torno de objetivos comuns.

10. O que Portugal deve fazer: urgência, precisão e ambição

Portugal tem, hoje, uma oportunidade rara, e talvez irrepetível, de se posicionar como país líder na economia elétrica europeia. Essa liderança depende de seis decisões coletivas: (i) reforçar redes com a mesma ambição com que instalamos renováveis. Sem rede, não há eletrificação. Sem eletrificação, não há competitividade; (ii) simplificar licenciamento de forma real, não simbólica. Prazos vinculativos, processos digitais, clarificação interinstitucional; (iii) garantir estabilidade regulatória e fiscal. O investimento não teme riscos técnicos, mas teme riscos políticos; (iv) atrair indústria, dados e inovação com electricidade limpa e assegurada. Data centers, combustíveis renováveis de origem não biológica e indústria pesada limpa, todos requerem previsibilidade; (v) capacitar capital humano. Sem técnicos, operadores e instaladores, não há transição; (vi) comunicar com verdade, diálogo e inteligência emocional. A transição, neste caso revolução energética, só avançará se for compreendida para poder ser aceite.

11. Conclusão: esperança informada, ação coletiva, ambição nacional

Portugal tem condições estruturais que muitos países europeus dariam muito para ter: sol, vento, água, biomassa, estabilidade, aceitação social, conhecimento técnico, reputação europeia e uma comunidade empresarial madura e comprometida.

O que falta não é potencial, falta velocidade, coerência, confiança e capacidade de execução.

A APREN continuará, como sempre fez, a estar ao lado dos seus Associados e do país, com rigor, com visão e com responsabilidade. Continuaremos a defender políticas que reforcem a competitividade, promovam investimento e garantam energia limpa, firme e acessível para todas as empresas e pessoas.

2026 será um ano decisivo. E o futuro de Portugal, económico, social, tecnológico e ambiental, dependerá da forma como o país souber transformar esta década de transição numa década de oportunidade.

Acreditamos firmemente que Portugal pode liderar. Agora é tempo de fazê-lo, porque Portugal precisa da nossa Energia